: dois-pontos · alguma coisa precisa ser dita

Sua Majestade, a Caneta

carta para uma menina entrando na tinta

Áudio

N., a cerimônia da caneta se aproxima. Não sei se vocês ainda chamam assim ou se a escola inventou um nome mais pedagógico, desses que cabem em comunicado com logotipo. Para mim, continuará sendo cerimônia. Porque há coisas pequenas que são maiores do que parecem. A primeira caneta é uma delas. Até agora, o lápis foi teu companheiro de travessia. O lápis é um bicho paciente. Erra junto, apaga junto, volta atrás sem fazer escândalo. O lápis sabe que a infância precisa de borracha por perto. A caneta, não. A caneta tem outra personalidade. É azul, fina, séria, às vezes falha no começo, depois escorre demais quando se empolga. A caneta não esquece com facilidade. Ela escreve como quem assina contrato com a

página. A caneta é uma pequena autoridade. Por isso, cuidado com ela. Não medo. Cuidado. Medo paralisa. Cuidado afina a mão. Quando eu era criança, também olhei para uma caneta como quem olha para um animal desconhecido. Havia naquele objeto uma promessa e uma ameaça. Promessa de escrever como gente grande. Ameaça de errar sem volta. A gente cresce quando descobre que quase nada é sem volta. Nem mesmo a tinta. É verdade: a caneta deixa marca. Mas marca não é sentença. Marca é memória do gesto. Às vezes, o erro que fica no papel ensina mais do que a frase limpinha que a borracha salvou da vergonha. Aprenda isto cedo, filha: o erro não é inimigo da inteligência. O erro é o lugar onde a inteligência, se tiver humildade, aprende a tirar os sapatos antes de entrar. A folha em branco vai tentar te intimidar. Não acredite. Toda folha em branco faz teatro.

Ela se finge de abismo, mas é chão. Se finge de silêncio, mas está cheia de espera. Se finge de pureza, mas aceita café, rasura, desenho, conta, bilhete, coração malfeito, palavra inventada e até aquela frase que a gente escreve sem saber por quê. A folha aceita quase tudo. Menos impostura. Isso talvez seja o mais importante. Seja com caneta, lápis, teclado, tela ou voz, nunca escreva apenas para parecer inteligente. É uma tentação feia. O mundo está cheio de frases penteadas que não dizem nada. Escreva para descobrir. Escreva para perguntar. Escreva para agradecer. Escreva para discordar. Escreva para abrir uma janela onde alguém jurou que não havia parede. A caneta tem uma gravidade bonita. Mas não entregue a ela toda a solenidade do mundo. Guarde um pouco do lápis. A leveza do lápis. A coragem de tentar. A liberdade de rabiscar antes de saber. A alegria irresponsável de desenhar uma casa torta e chamar aquilo de futuro. O equilíbrio é esse: usar a caneta com rigor sem expulsar o lápis de dentro da mão. Porque crescer não deveria ser abandonar a fantasia. Deveria ser aprender a protegê-la melhor.

Quando tua mão encostar na caneta pela primeira vez, talvez ninguém perceba a grandeza do acontecimento. Talvez haja barulho na sala. Talvez alguém peça silêncio. Talvez o estojo caia. Talvez a professora explique a regra. Talvez você pense apenas na tinta azul. Mas eu, daqui, saberei. Uma menina estará entrando no território das marcas. E eu desejo que você entre sem pavor. Com pulso firme, sim. Com ideias organizadas, às vezes. Com dúvida, sempre que for preciso. Com a delicadeza de quem sabe que escrever é tocar o mundo sem machucá-lo de graça. Use a caneta. Mas não deixe que ela vire polícia. A vida já terá policiais demais tentando fiscalizar tua imaginação. Com orgulho, papai. » o lápis perdoa; a caneta lembra » a folha em branco faz teatro » erro é memória do gesto » crescer é proteger melhor a fantasia

Selecione um trecho para gerar um card de citação.
WhatsAppX / Twitter