: dois-pontos · alguma coisa precisa ser dita
As letras dão as mãos
carta para um menino que descobriu a cursiva
G., a vida é feita de fases. Ou levels, como nos jogos que você gosta. Algumas fases são fáceis só para enganar. A gente passa sorrindo, pega moeda, pula buraco pequeno, acha que entendeu o mundo. Depois vem uma fase escura, com chefão, labirinto, plataforma que desaparece e aquele tipo de música que avisa: agora complica. A vida também muda a música. Às vezes, o desafio aumenta. Às vezes, muda apenas de forma. Às vezes, a gente descobre que o botão certo não era força, era paciência. Você vai aprender isso muitas vezes. Eu ainda estou aprendendo. Hoje pensei em você por causa das letras. Você está naquele momento bonito em que as letras deixam de andar separadas e começam a dar as mãos. A escrita
cursiva é uma invenção comovente: uma letra encosta na outra para atravessar o sentido. O “a” chama o “m”. O “m” chama o “o”. O “o” chama o “r”. E, quando a gente percebe, a palavra já está andando sozinha pela página. Família é um pouco isso. Ninguém aqui é igual. Cada um tem seu desenho, sua manha, sua curva, seu tamanho, seu jeito de ocupar a linha. Mas, quando damos as mãos, alguma coisa que não existia começa a escrever seu próprio nome. Nós quatro somos uma palavra comprida. Nós cinco, se a Pituca entrar correndo no meio da frase. E ela sempre entra. O vovô, no quintal de Pirenópolis, gosta de manejar a enxada. A enxada abre a terra. Parece simples, mas não é. Abrir a terra é conversar com o que ainda não apareceu. É confiar que uma semente, sendo quase nada, pode guardar uma árvore inteira em silêncio. O lápis faz parecido. Com a enxada, plantamos comida. Com o lápis, plantamos letras.
Conhecimento também alimenta. E, nesse caso, a gula não faz mal. Leia muito. Pergunte muito. Desconfie um pouco de respostas fáceis. Toda resposta fácil demais pode ser só uma fase bônus escondendo uma armadilha. Mas também não complique por vaidade. Há pessoas que transformam tudo em labirinto para parecerem profundas. Profundidade de verdade nem sempre faz discurso. Às vezes, ela apenas rega uma planta no fim da tarde. A escrita vai te ajudar a passar de fase. Não porque ela resolva tudo. Não resolve. Mas ela organiza a mochila. Quando o medo estiver grande, escreva. Quando a alegria estiver pulando, escreva. Quando sentir raiva, escreva antes de quebrar alguma coisa que talvez não mereça. Quando não souber o que está sentindo, escreva para descobrir. Escrever é acender uma lanterna por dentro. Nem sempre mostra o caminho inteiro. Mas já ajuda a não tropeçar no mesmo canto. E lembre: pedir ajuda não é perder o jogo. Tem fase que não se passa sozinho.
O jogador que aprende a cooperar descobre mapas que a competição nunca mostra. A vida não é só vencer. Às vezes, é voltar para buscar quem ficou preso na fase anterior. Vamos juntos. De mãos dadas com as letras. De mãos dadas com a vida. Com amor, papai. » uma letra chama a outra » conhecimento também alimenta » pedir ajuda não é perder o jogo » família é palavra comprida