: dois-pontos · alguma coisa precisa ser dita
Quando a vontade cria asas
Comentário sobre autonomia, medo e voo solo
Meus pequenos, autonomia é uma palavra grande.
Parece coisa de adulto em palestra.
Mas começa pequena. Começa quando alguém aprende a guardar o brinquedo.
Quando escolhe a roupa e aguenta o frio da escolha. Quando lembra da garrafa de água. Quando pede desculpa sem precisar de plateia.
Quando entende que liberdade não é fazer tudo o que dá vontade, mas aprender a cuidar da própria vontade. A vontade é um bicho rápido.
Quer doce antes do almoço.
Quer tela até tarde.
Quer responder atravessado.
Quer desistir quando fica difícil.
Quer ter razão mesmo quando não escutou direito.
A vontade é importante.
Sem ela, ninguém levanta voo.
Mas vontade sem cuidado vira empurrão.
Autonomia é quando a vontade cria asas sem esquecer que existe vento, janela, telhado, outro passarinho e gente passando na rua.
Ser autônomo não é ser sozinho.
Isso é uma confusão comum.
Tem adulto que acha que autonomia é não precisar de ninguém.
Coitado. Deve viver cansado, carregando uma casa inteira nas costas para provar que não depende de porta.
A gente depende.
Depende de abraço, de escola, de comida, de rua segura, de cuidado, de palavra boa, de gente que ensina, de gente que corrige, de gente que espera a gente crescer sem puxar a planta pelo caule.
Autonomia não é ausência de laço.
É aprender a caminhar sem transformar o laço em corrente. Eu quero que vocês sejam livres.
Mas não uma liberdade solta no mundo, dessas que confundem coragem com descuido.
Quero uma liberdade com raiz.
A liberdade de dizer sim quando o sim for inteiro. A liberdade de dizer não quando alguma coisa apertar por dentro.
A liberdade de pedir ajuda sem achar que isso diminui vocês. A liberdade de sustentar uma escolha quando ela for justa, mesmo que não seja fácil.
Vocês vão errar.
Ainda bem.
Quem não erra nunca provavelmente não está tentando nada importante.
Mas há erros que ensinam e erros que ferem.
Aprendam a diferença.
Não tenham vergonha de aprender devagar.
A pressa é uma péssima professora.
Ela dá bronca demais e quase nunca explica.
A autonomia cresce quando a gente percebe que toda escolha deixa uma pegada. Às vezes pequena. Às vezes funda. Às vezes bonita. Às vezes difícil de consertar.
Por isso, antes de escolher, escutem.
Escutem o corpo.
Escutem a casa.
Escutem quem ama vocês sem querer mandar na alma de vocês.
Escutem a dúvida.
Escutem até o silêncio, porque o silêncio às vezes sabe coisas que a nossa fala ainda está tentando disfarçar. Um dia vocês vão atravessar ruas sem a nossa mão.
Vão escolher caminhos que talvez a gente não entenda de primeira.
Vão descobrir amigos, amores, trabalhos, cidades, medos, alegrias, perdas, vontades enormes e pequenos arrependimentos.
A gente não poderá ir junto em tudo.
E isso dói um pouco.
Mas também é bonito.
Criar filhos talvez seja isso: ensinar alguém a voar e depois resistir à tentação de chamar todo voo de perigo.
Eu espero que vocês voem.
Não para longe da gente.
Para dentro de vocês.
E, quando o mundo estiver barulhento demais, lembrem: asa boa não é a que foge de todo vento.
É a que aprende a cruzá-lo em segurança.
Com amor, papai.