: dois-pontos · alguma coisa precisa ser dita
Quando a vontade cria asas
carta sobre autonomia, queda e prudência
N. e G., vocês estão aprendendo a voar. Não de uma vez. Ninguém voa de uma vez, a não ser nos desenhos e em certos discursos motivacionais que deviam pedir desculpas às aves. O voo começa muito antes do céu. Começa no primeiro passo torto. Na primeira queda. Na primeira colher segurada com teimosia. Na primeira vez em que a criança diz “eu faço” e o adulto precisa controlar a vontade de impedir o desastre. Cuidar também é aprender a não segurar demais. Essa é uma das matérias difíceis da paternidade. A gente quer proteger. Mas proteção, quando exagera, vira gaiola com boa intenção.
E ninguém aprende a voar dentro da gaiola, por mais confortável que ela seja. Autonomia é uma palavra bonita, mas costuma ser maltratada. Muita gente acha que autonomia é não precisar de ninguém. Não é. Isso se chama solidão fantasiada de competência. Autonomia nunca é absoluta. Depende do corpo, da casa, da escola, do dinheiro, da cultura, da cidade, da sorte, da saúde, do tempo, das pessoas que nos cercam e das oportunidades que abriram ou fecharam portas antes mesmo de nascermos. Só é verdadeiramente autônomo quem sabe que não está sozinho no mundo. Ser autônomo não é virar ilha. É aprender a ser ponte sem desabar. É saber escolher, sim. Mas também saber pedir ajuda. Saber dizer não. Saber esperar. Saber reconhecer o limite. Saber que cada pessoa, cada bicho, cada árvore, cada rio participa do equilíbrio de tudo. O mundo vai tentar vender a vocês uma autonomia agressiva. Uma autonomia de vitrine: seja seu próprio chefe, vença sozinho, destaque-se, supere todos, não dependa de ninguém, transforme-se em marca.
Desconfiem. Marca não abraça. Marca não segura a mão na febre. Marca não ri da piada sem graça. Marca não aparece com sopa. Marca não sabe o nome do medo. O discernimento é irmão da prudência. E os dois são bons amigos da autonomia. Perder o medo de cair talvez seja a penúltima etapa antes de aprender a voar. A última é calcular a altura. Ícaro tinha vontade, tinha asas, tinha céu. Faltou juízo. Não basta à vontade ter asas. Precisa ter escuta. O desejo é lindo, mas não deve dirigir sozinho. Há precipícios que confundem coragem com vaidade. Há riscos necessários. Há riscos idiotas. Há riscos que ensinam. Há riscos que apenas cobram caro por uma lição barata. Que vocês saibam diferenciar. E, quando não souberem, perguntem. Às vezes, perguntar é a forma mais elegante de não cair. Encarem a vida, por mais rotineira que seja, como aventura.
Não aventura de comercial, com gente bonita no topo da montanha usando casaco impermeável. Aventura de verdade. A de acordar sem saber o que o dia vai pedir. A de fazer amizade. A de aprender algo difícil. A de pedir perdão. A de mudar de ideia. A de defender alguém. A de descobrir que o mundo é maior do que a nossa vontade. Cada novo dia é uma história ainda não escrita. Enquanto houver sol, prefiram as telas em branco. Preencham com as cores de vocês. Não deixem que ninguém escolha a paleta inteira. Com amor, papai. » autonomia não é ilha » proteção demais vira gaiola » não basta à vontade ter asas » cada dia é uma história sem tinta ainda
… RETICÊNCIAS o que continua depois da gente