: dois-pontos · alguma coisa precisa ser dita
A menina que pintou o mundo de novo
conto mínimo para uma filha que chegou com as cores
Era uma vez uma menina que não cabia em um nome só. Às vezes era N. Às vezes Naninha. Às vezes pipoca. Às vezes furacão. Às vezes sapeca. Às vezes silêncio raro no sofá, com os olhos trabalhando por dentro. Ela tinha muitos nomes porque tinha muitos climas. Havia manhãs em que acordava verão. Tardes em que virava tempestade. Noites em que se recolhia feito lua atrás de nuvem. Quando nasceu, encontrou o pai meio desbotado. Não era tristeza exatamente. Era uma cor gasta. O tipo de cor que os adultos vão perdendo aos poucos, sem perceber: numa fila, numa conta, numa notícia ruim, num e-mail respondido tarde demais, numa promessa que ficou para depois, num sonho que aprendeu a ficar quieto para não atrapalhar o orçamento.
O pai ainda funcionava. Adultos desbotados funcionam. Tomam banho. Pagam boletos. Respondem mensagens. Dizem “está tudo bem” com uma competência quase criminosa. Mas funcionam sem brilho. A menina percebeu. Bebês percebem coisas que os filósofos demoram bibliotecas para nomear. Então ela fez o que as meninas mágicas fazem: não explicou nada. Apenas chegou. Chegou com cheiro de começo. Com mão pequena. Com choro inaugural. Com um tipo de presença que bagunçava os móveis invisíveis da casa. O pai olhou. E, sem aviso, o mundo começou a receber tinta. Primeiro voltou o amarelo. Não o amarelo oficial, de semáforo ou planilha destacada. Um amarelo de luz entrando pela fresta da cortina. Um amarelo de mamão cortado no café da manhã. Um amarelo de desenho feito fora da linha. Depois veio o azul.
Azul de banho. Azul de roupa pequena secando no varal. Azul de céu visto com uma criança no colo, que é um céu diferente, mais baixo e mais antigo. Depois o vermelho. Vermelho de bochecha. De febre. De susto. De amor quando passa correndo pela sala e quase derruba a mesa. Depois o verde. Verde de planta que alguém esqueceu de regar e, mesmo assim, insistiu. Verde de recomeço. Verde de “talvez ainda dê”. A menina pintava sem pincel. Pintava perguntando. Pintava rindo. Pintava ficando doente de madrugada e obrigando o pai a descobrir que amor também é vigília. Pintava errando palavra. Pintava dormindo torta. Pintava dizendo coisas que não sabiam que eram poemas. O pai, suspeito como todo pai, começou a acreditar que ela tinha poderes. E tinha. O poder de recolorir o que a vida adulta havia deixado em preto e branco. Mas a menina não salvou o pai. Criança nenhuma deve carregar essa tarefa absurda. Ela apenas lembrou a ele que o mundo ainda aceitava cor.
E isso já era milagre suficiente. Hoje, quando ela passa, alguma coisa no ar muda de filtro. Não desses filtros de aplicativo, que melhoram a imagem mentindo. Um filtro de presença. Aquele que não esconde a realidade. Só devolve a ela a coragem de brilhar um pouco. » criança nenhuma deve salvar adulto » ela apenas devolveu cor ao mundo » amor também é vigília » o começo tem cheiro próprio