: dois-pontos · alguma coisa precisa ser dita

Antes que as palavras durmam

Áudio

mensagem para N. e G. Meus pequenos, escrevo antes que o dia acabe. Existe uma hora da noite em que a casa fica parecida com um bicho grande dormindo. A geladeira respira. O corredor estala. Um brinquedo esquecido no chão parece guardar o segredo de uma civilização desaparecida. Vocês dormem. E, quando vocês dormem, o mundo para de exigir desempenho. Ninguém pede relatório. Ninguém quer apresentação. Ninguém diz “alinhamento estratégico”. Ninguém usa a palavra entrega como se fosse religião. Só sobra o pai. E o pai, coitado, é um adulto que ainda está tentando entender o recreio. Durante o dia, eu atravesso palavras que não nasceram para abraçar ninguém: meta, prazo, contrato, versão, anexo, evidência, indicador, governança. Palavras de sapato

apertado. Palavras que sabem entrar em reunião, mas não sabem contar história antes de dormir. À noite, perto de vocês, a língua troca de roupa. Fica mais simples. Mais antiga. Mais perigosa. Porque dizer “eu te amo” para uma criança exige mais coragem do que defender uma tese para adultos. Adultos aceitam disfarces. Crianças percebem. Vocês percebem quando eu chego cansado. Quando rio pela metade. Quando digo que está tudo bem e alguma coisa em mim ainda procura cadeira. Quando o corpo demora mais do que a vontade. Quando a cabeça ficou presa em algum lugar que não veio para casa comigo. Por isso escrevo. Para trazer de volta o que o dia levou. Escrevo porque há coisas que um pai só consegue dizer quando a casa dorme e ninguém espera dele uma resposta pronta. Quero que vocês saibam: nem sempre estará tudo bem. E isso não é uma tragédia. A gente aprende, com o tempo, que viver não é manter tudo no lugar. É encontrar beleza mesmo quando algumas gavetas internas não fecham mais. Vocês me ensinaram isso.

Antes de vocês, eu achava que recomeçar era uma decisão adulta: séria, planejada, com alguma planilha escondida. Depois entendi que recomeçar é mais parecido com brincar. A torre cai. A criança ri ou chora. Depois junta os blocos e levanta outra coisa. O mundo precisa reaprender isso com vocês. A levantar outra coisa. Não uma torre mais alta. Uma casa mais justa. Não uma máquina mais rápida. Um tempo mais respirável. Não uma cidade mais esperta. Uma rua onde todos possam voltar para casa. Não quero deixar para vocês mandamentos. Mandamento pesa. Prefiro deixar ferramentas. Uma caneta para quando a vida pedir assinatura. Um lápis para quando ela permitir rascunho. Uma borracha para lembrar que quase tudo pode ser recomeçado. Uma enxada imaginária para cultivar sentido. Uma pequena fogueira acesa dentro do peito, para que as histórias não passem frio. Quando eu não estiver por perto, procurem minhas palavras sem muita reverência. Pai não é monumento. Pai é, quando muito, uma ponte improvisada sobre um trecho difícil do rio.

Atravessem. E, quando chegarem do outro lado, não carreguem a ponte nas costas. Inventem as de vocês. Com amor, papai. » família é letra dando a mão » o amor chega, mesmo mancando » pai não é monumento » deixar ferramentas, não mandamentos

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