! exclamação · o corpo transmite

Pedra sobre pedra

ensaio mineral para um coração que queria não sentir

Áudio

A pedra bloqueia, sustenta, abriga, registra.

Constrói, sepulta, eleva.

Não é a pedra que fere. Tampouco se deve julgá-la pela mão de quem a arremessa.

A pedra não tem culpa da nossa violência. Ela apenas existe com uma competência antiga.

Pedras são coesas. Viajam longas distâncias juntas. Rolam. Deslizam.

Acomodam-se. Sedimentam.

Sabem se encaixar no tempo.

Formam relevos, serras, paredões, cordilheiras inteiras atravessando mapas como frases que a Terra escreveu devagar. Estejam onde estiverem, as pedras sabem como se colocar.

A gente, nem sempre.

Queria eu ter a inteligência da pedra.

Uma inteligência concreta, obstinada, silenciosa.

Capaz de se projetar para além das nuvens.

Capaz de estabelecer limites sem precisar explicar a própria firmeza.

Capaz de não arredar pé da sua justa posição, mesmo diante da estupidez humana e da covardia dos canhões.

Montanha, morro, serra ou cordilheira, a pedra ensina uma forma de elegância.

A elegância de permanecer.

Não a permanência arrogante de quem não muda nunca, mas a permanência funda de quem muda no tempo certo: sob a insistência da água, do vento, do calor, do frio, da pressão invisível dos séculos.

A pedra sabe negociar com a natureza.

Não se entrega de uma vez.

Não faz espetáculo.

Não pede aplauso.

Cede lentamente.

E, quando cede, ainda assim continua pedra.

Há nisso uma sabedoria difícil.

Porque nós, diante de emoção forte, perdemos a forma. Diante de pensamentos que nos atormentam, rachamos por dentro. Diante das adversidades, queremos fugir da nossa própria geografia.

A pedra, não.

A pedra suporta o peso de ser lugar.

Tem energia, magnetismo, memória.

Antes do livro, a pedra escreveu.

Antes do arquivo, a pedra guardou.

Antes da ferramenta, a pedra ensinou à mão humana que o mundo podia ser tocado, cortado, polido, ferido, transformado.

A pedra inaugurou uma parte da história. Deu ao homem o instrumento — e talvez também a ilusão — de dominar a natureza.

Em muitas culturas, acredita-se que as pedras carreguem espíritos.

Algumas curam. Algumas protegem. Algumas amaldiçoam. Algumas lembram. Algumas marcam túmulos. Algumas erguem casas. Algumas guardam nomes que ninguém mais pronuncia.

Pense bem, portanto, antes de atirar a primeira pedra.

E pense melhor ainda antes de atirar a última.

Quem dera eu tivesse a inteligência da pedra.

Uma inteligência sólida, mas não bruta.

Implacável, mas não apressada.

Dura, mas capaz de ser moldada pelo que insiste com delicadeza.

A água sabe disso.

O vento sabe disso.

O tempo sabe disso.

Tudo que parece frágil, quando persiste, modifica a pedra. Pedras são arquivos cósmicos.

Funcionam como backup do universo.

A pedra pode se partir em mil pedaços, mas nunca conhecerá desejo, medo, angústia ou frustração. O frio a atravessa. O calor a expande.

A pressão a transforma.

Mas nada disso a humilha.

A pedra não espera resposta.

Não aguarda mensagem.

Não imagina futuro.

Não revisa passado.

Não sofre por aquilo que não veio.

Não inventa explicação para quem partiu.

Quisera eu ter essa inteligência livre de expectativa. Quisera eu saber permanecer sem endurecer.

Porque há uma diferença imensa entre ser firme e virar pedra.

Se eu tivesse aprendido antes a sabedoria mineral das coisas, talvez meu coração não tivesse precisado se proteger tanto. Talvez não tivesse confundido defesa com frieza. Silêncio com força. Distância com cura. Orgulho com montanha. Talvez tivesse entendido que até a pedra, quando encontra água suficiente, aprende outra forma.

E que o coração, quando vira pedra, não está ficando mais forte.

Está apenas esquecendo como se deixa tocar.

Selecione um trecho para gerar um card de citação.
WhatsAppX / Twitter