! exclamação · o corpo transmite

Fisioterapia da alma

crônica para uma frase que reaprende o gesto

Áudio

Escrever também é movimento. Ninguém pensa nisso porque a escrita gosta de posar de coisa mental. Finge que mora na cabeça, numa salinha limpa, com boa iluminação e estantes discretas. Mentira. A escrita mora no corpo inteiro. Mora na mão que hesita. No olho que volta. Na lombar que protesta. No maxilar que aperta. No peito que segura uma palavra antes que ela vire choro. No dedo que apaga a frase e, mesmo assim, deixa o fantasma dela assombrando o parágrafo seguinte. A escrita é uma coordenação fina entre memória e risco. A gente escreve com tudo que já perdeu. Com a infância. Com a raiva. Com o medo. Com a pressa. Com o amor que não encontrou frase na hora certa. Com os mortos que ainda corrigem nossa pontuação por dentro. Quando comecei a escrever mais, achei que era urgência literária.

Depois entendi que era reabilitação. Cada frase era um alongamento do invisível. Cada parágrafo, uma tentativa de recuperar amplitude. Cada corte, uma pequena cirurgia sem anestesia. Cada vírgula, um lugar para respirar sem pedir licença. A fisioterapia ensina uma humildade feroz. O movimento que parecia simples volta a ser conquista. Levantar. Virar. Segurar. Soltar. Dobrar. Esticar. Repetir. A literatura também. Uma frase boa raramente nasce andando. Primeiro ela engatinha. Cai. Bate o queixo. Faz birra. Tenta de novo. Depois, de repente, encontra o próprio passo. Há dias em que escrever é correr. Há dias em que escrever é mancar com dignidade. Há dias em que escrever é apenas encostar a mão na parede e não cair. O papel aceita tudo isso. A tela também, embora seja mais impaciente. A tela quer salvar, sincronizar, sugerir, corrigir, completar. A tela se mete. A tela acha que sabe. A tela sublinha em vermelho palavras que talvez estivessem apenas vivas demais para o dicionário. O papel é mais antigo. O papel escuta.

Não pergunta se queremos ativar notificações. Não oferece versão premium da melancolia. Não transforma a dúvida em pop-up. O papel fica. E, quando a mão treme, ele não faz escândalo. Só registra a dança. Talvez escrever seja isso: registrar a dança possível. Não a dança bonita. Não a dança ensaiada. Não a dança dos corpos autorizados pela juventude, pela saúde, pela estética, pela academia, pelo algoritmo. A dança possível. Aquela que acontece quando o corpo já não acredita tanto na coreografia oficial, mas ainda escuta alguma música por dentro. O mundo cobra performance. A escrita oferece presença. São coisas diferentes. Performance pergunta: ficou bom? Presença pergunta: foi verdadeiro? Performance quer aplauso. Presença quer testemunho. Performance se preocupa com a câmera. Presença se preocupa com a respiração. Escrevo para não esquecer que ainda estou presente.

Mesmo quando lento. Mesmo quando torto. Mesmo quando a frase sai com letra de outro. Escrevo porque a vida, às vezes, precisa de segunda via. E porque o corpo, quando falha, não para de dizer. Só muda o idioma. » escrever é movimento » cada vírgula é um lugar para respirar » o papel registra a dança » presença é mais difícil que performance

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