! exclamação · o corpo transmite

A carne suporta

manifesto breve sobre corpo, mídia e notícia

Áudio

Antes da palavra, o corpo já estava escrevendo. Na febre. Na fome. No desejo. No medo. No arrepio. Na cicatriz. Na dança. Na exaustão. Na respiração que muda quando alguém entra na sala. A carne publica. Sem legenda. Sem plataforma. Sem assessoria. Sem revisão de marca. A pele é o primeiro jornal. Noticia o frio. Noticia o toque. Noticia a violência. Noticia o afeto. Noticia o tempo. O corpo não é obstáculo. É mídia. Suporte, sinal, arquivo, antena, tambor. Aquilo que chamamos de sintoma talvez seja uma matéria urgente de um território que não aceitou mais ser colônia da cabeça. Durante anos, tratamos o corpo como transporte.

A cabeça decidia. O corpo levava. A cabeça sonhava. O corpo pagava. A cabeça prometia. O corpo entregava. Até que um dia o corpo interrompe a programação. Sai do rodapé. Invade a manchete. Diz: agora me leiam. Nem sempre sabemos ler. Fomos alfabetizados para contratos, telas, manuais, boletos, métricas, mapas, gráficos, diagnósticos. Mas seguimos analfabetos do próprio corpo. Chamamos de preguiça o que era exaustão. Chamamos de fraqueza o que era pedido. Chamamos de idade o que era aviso. Chamamos de estresse o que era incêndio. Chamamos de normal o que era insuportável. O corpo não mente. Mas fala em línguas difíceis. A dor, às vezes, é notícia atrasada. O tremor, notícia em tempo real. O cansaço, editorial. O silêncio, coluna de opinião. Escutar o corpo não é obedecer a tudo. É parar de governá-lo como ditadura. É aprender uma democracia de tecidos, nervos, ossos, memória, desejo, medo e futuro. Porque nenhuma cabeça governa sozinha.

A cabeça pode discursar. Mas é a carne que publica a verdade do regime. » a pele é o primeiro arquivo » o sintoma é notícia do corpo » respirar é publicar no invisível » nenhuma cabeça governa sozinha

: DOIS-PONTOS alguma coisa precisa ser dita

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