! exclamação · o corpo transmite
Do jeito que der, a gente dança
crônica para enfrentar o inverno antecipado do destino
Um dia, o que parecia mais um inverno chegou antes da hora.
Surpreso, o corpo sentiu. Logo, o ser inteiro estremeceu. Primeiro, uma letra torta. Depois, uma frase mancando. Depois, a mão assinando com letra de outra pessoa. O organismo tem dessas coisas: passa anos trabalhando em silêncio e, quando resolve falar, gera ruído.
Era o início da minha era glacial. Vieram os nomes complexos. Os exames. As hipóteses com jaleco branco, azul, verde. As palavras compridas tentando domesticar o susto. Dopamina. Substância negra. Neurônio. Tremor. Rigidez. Bradicinesia. Freezing.
E ela.
A Frozen das Trevas: Alfa-Sinucleína.
Nome de espiã soviética.
Nome de condessa vampira.
Nome de banda pós-punk que ninguém entendeu em 1983. Uma neuroassassina profissional. A proteína descabelada. A inquilina sem contrato. A vilã na torre de comando, sabotando a máquina humana.
No começo, eu quis entender tudo.
Li. Pesquisei. Consultei.
Busquei refúgio onde não havia civilização.
Meditei diante do abismo.
Mas chega uma hora em que as perguntas ecoam de volta, alto e sem resposta.
Por que eu? Por que agora? Por que esse corpo, que já tinha tanta conta, tanta reunião, tanta infância para carregar pela mão? A ciência sabe muita coisa.
Ainda não sabe tudo.
Também não sabemos tudo sobre os buracos negros, e eles seguem mesmo assim engolindo estrelas e arrotando gás com aquela educação cósmica de quem não deve satisfação a ninguém.
Então parei de procurar uma culpa em mim ou no universo. Culpa é uma cadeira desconfortável, mas a gente senta mesmo assim para não precisar andar. E eu precisava andar. Ou reaprender.
De certa forma, liguei o foda-se para o Parkinson. Não como bravata.
Bravata pura é testosterona no estádio.
Liguei o foda-se como quem abre uma janela.
Cansei de pedir autorização para o futuro.
Cansei de ensaiar drama antes da hora.
Cansei de imaginar a vida como uma escada em que alguém, sacanamente, apagou a luz.
Fui velejar.
Era um sonho antigo: botar a cara no vento e aprender que nem todo controle é força. Às vezes, controlar é escutar. É perceber antes de mandar. É aceitar que o vento não obedece: conversa. A vela sabe. As águas sabem. O corpo, quando a gente para de mandar nele, também começa a saber.
Comecei a escrever mais. Talvez porque o papel não se incomode com a lentidão.
O papel que me incomoda é o de coitado.
O coitado é um personagem criado para fazer os medíocres se sentirem melhores por alguns instantes.
Também não pretendo vestir a capa de herói. Herói nunca pode vacilar.
Herói vira palestra motivacional, vira modelo, vira caneca com frase. Herói não pode reclamar de dor, nem de medo, nem de vontade de sumir no meio da tarde ou faltar à academia sem justificativa.
Só quero seguir vivendo minhas escolhas com autonomia. Não sou inconsequente. Também não sou exemplo de superação.
Exemplo de superação é gente que acorda às quatro, pega dois ônibus, cria filho — seu e dos outros —, enfrenta humilhação, paga conta com muito suor, envelhece cedo e ainda oferece café com um sorriso no rosto.
Eu sou mais um homem branco privilegiado tentando não desperdiçar a chance de continuar inteiro,
mesmo dividido.
Mesmo incompleto.
Então fiz um acordo com o corpo.
Ele avisa. Eu escuto.
Ele trava. Eu espero.
Ele cansa. Eu negocio.
Ele treme. Eu canto.
E, se em algum momento não der para marchar, a gente dança.
Do jeito que for.
Do jeito que puder.