! exclamação · o corpo transmite

O outro

crônica para uma presença que entrou sem pedir licença

Áudio

Desde que um outro apareceu entre nós, nossa vida mudou. Não um outro de carne, perfume, mensagem escondida, cartão Black ou promessa clandestina. Não um terceiro desses que rendem escândalo, confissão, porta batida e música ruim no domingo.

Este outro não tem CPF.

Não manda áudio.

Não ocupa cadeira à mesa.

Não deixa toalha molhada na cama.

Mas está aqui. Às vezes discreto. Às vezes inconveniente. Às vezes sentado entre nós, mesmo quando fingimos que há apenas dois pratos, duas escovas, duas vozes, dois corpos tentando seguir.

O nome dele é James, mais conhecido pelo sobrenome: Parkinson.

Não gosto de escrever esse nome como quem assina uma sentença.

Ele não é uma sentença. Também não é um resfriado. É uma presença crônica, insistente, cheia de manias, que se manifesta pelo meu corpo e, por consequência, passou a morar um pouco na nossa casa.

Ele entrou sem bater.

E, desde então, você e eu temos tentado reorganizar os móveis invisíveis da vida.

Eu sei que sofremos juntos.

Mas há uma parte do sofrimento que eu guardo como se fosse só minha.

Uma culpa meio torta, meio inútil, meio inevitável. Ela aparece quando te vejo preocupada com o futuro, cansada, triste, frustrada com minhas limitações, ou irritada porque, aos teus olhos, eu talvez não esteja fazendo tudo o que deveria.

Nessas horas, penso: estraguei alguma coisa.

Não sei se é justo comigo.

Não sei se é justo contigo.

Mas é o que passa.

Eu tento levar a vida como sempre. Talvez seja coragem. Talvez seja negação.

Talvez seja um pouco das duas coisas, porque quase nada em nós vem puro.

Você, muitas vezes, enxerga urgência onde eu tento enxergar calma.

Nenhum de nós recebeu manual para lidar com o intruso. O fato é que ele, o James, o Parkinson, se tornou um terceiro. Quando não está manifesto, está latente. No teu pensamento ou no meu. Na forma como planejamos o dia. No medo do futuro. Na pequena tensão diante do corpo. No silêncio depois de uma conversa atravessada.

Eu não costumo levá-lo para a cama.

Mas sei que, às vezes, ele se ajeita por ali: debaixo do lençol, no espaço entre um corpo e outro, na distância mínima que uma preocupação pode abrir.

Não é ciúme o que sinto.

É constrangimento.

É inadequação.

É medo de desaparecer atrás do diagnóstico.

Como se aquele por quem você se apaixonou estivesse, aos poucos, ficando fora de foco na tua lente. Como se eu ainda estivesse aqui, mas precisasse provar todos os dias que sou

mais do que o tremor, mais do que a rigidez, mais do que a lentidão, mais do que as falhas que o outro imprime em mim. Há momentos em que me pergunto se você ainda me vê separado dele.

E talvez essa pergunta doa mais do que eu gostaria de admitir.

Ele se apresenta por meu intermédio, mas não sou eu. Carrego seus sinais, suas interferências, suas pequenas sabotagens. Ainda assim, há uma diferença entre o hóspede indesejado e a casa onde ele se instalou.

Eu continuo aqui.

Com medo, sim.

Com raiva às vezes.

Com humor quando consigo.

Com fé na vida, do meu jeito.

Com vontade de seguir fazendo escolhas, mesmo quando tento negociar cada passo.

Quem convive com a doença sabe que há dias em que o corpo parece obedecer a outro comando. Há momentos em que o passo falha, congela, tropeça. Na rua, o olhar dos outros pesa. As pessoas tentam decifrar o que há de errado.

Procuram no corpo uma explicação visível para aquilo que não entendem.

Você também perdeu alguma coisa quando ele chegou. Talvez tenha perdido a leveza de antes. Talvez tenha perdido uma parte da confiança despreocupada no futuro. Talvez tenha ganhado uma vigilância que não pediu, uma função de cuidado que ninguém deveria exercer sozinha.

Por isso não quero e nem vou transformar você em culpada pela minha culpa.

Nem quero transformar meu desconforto em drama ou cobrança.

O nosso desafio é impedir que ele sente no meu lugar. Impedir que ele fale por mim. Impedir que ele seja o centro da mesa. Impedir que ele vire o nome principal da nossa relação.

Não há como expulsá-lo.

Precisamos achar um lugar para ele.

Encontrar uma forma de abstrair sua presença incômoda. Para que o cuidado não pareça acusação. Para que minha resistência ao tratamento não pareça negação. Para que a gente possa falar dele olhando no olho, sem deixar que ele nos cale.

Mas amar, às vezes, é isso: reorganizar a casa para não atrapalhar a rotina quando uma visita indesejada se instala sem avisar que viria.

Não dá para fingir que ela não existe.

Mas é preciso ficar claro, todos os dias, quem realmente mora ali.

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