— travessão · a cidade interrompe e recomeça
Pertencimento
letra-canção para lugares que continuam olhando por nós
Cada rua, praça, esquina fica em nós impregnada. Entra pelos olhos, atravessa a pele, suga alguma luz da nossa passada.
Há lugares insaciáveis. Querem o brilho da retina, o susto do primeiro olhar, a lembrança que a gente nem sabia que iria carregar.
Na contramão dos sentidos, sem pedir roteiro, percorrem caminhos interrompidos e nos atravessam por inteiro. A paisagem fica para trás. Um pouco de nós fica também. Levamos lembranças boas, lembranças más, e aquilo que nos cabe nem sempre nos convém.
Toda presença se dilui.
Mas é na ausência que tudo principia.
Gente é obra que não se conclui.
Saudade é eco que não silencia.
Impressões, sussurros, memória. Tudo marca: pessoas, coisas, lugares.
Dizem que o tempo é relativo. Que a alma busca transcendência.
Mas o contexto é imperativo: condiciona a existência. Ninguém existe no vazio. Somos feitos de chão, janela, cheiro de rua, barulho de casa, nome de cidade, medo de partida, vontade de voltar. Se nos faltar algum motivo, pertencimento traz consciência.
Coração livre, amor cativo. Meu peito, tua residência. E quando eu penso que fui embora, algum lugar me chama por dentro. Não pelo mapa. Não pelo endereço. Mas por aquilo que deixei nele sem perceber: um resto de olhar, um passo, uma sombra, uma promessa muda de permanecer. Pertencer talvez seja isso: não possuir o lugar, mas ser lembrado por ele quando a vida nos perde.