— travessão · a cidade interrompe e recomeça
O Cínico do Bloco Y
perfil de um homem que envelheceu antes da esperança
Nicanor V.D.M. tem 82 anos. E contando, segundo ele. Mas só por teimosia estatística.
Foi aposentado compulsoriamente do extinto Departamento de Análise e Distribuição de Clipe de Papel, órgão tão necessário que nem os servidores sabiam explicar sua finalidade sem consultar três memorandos, duas portarias e uma garrafa térmica de café.
Nicanor jura que o departamento era estratégico para a segurança nacional.
Durante 57 anos, carimbou documentos, alguns talvez sigilosos, outros certamente inúteis. Dominou como poucos a arte de usar um furador de papel sem ferir a mão, habilidade que, segundo ele, “o Estado brasileiro jamais soube remunerar com a devida reverência”.
Nunca aceitou, aliás, que a turma do andar de cima — os grampeadores — tivesse conquistado adicional de periculosidade antes dos clipadores. “Um absurdo institucional”, repetia. “Quem nunca levou um clipe enferrujado debaixo da unha não sabe o que é servir ao país.”
Nicanor vê o mundo com a perspectiva de um limão espremido.
Se algo pode dar errado, ele não apenas já previu: também redigiu o epitáfio, protocolou a cópia e deixou uma versão revisada para o caso de a tragédia ser ainda mais burra do que o esperado.
Considera-se um otimista pela manhã, um realista à tarde e um pessimista à noite, porque acredita que o dia seguinte sempre encontra um jeito de decepcionar com criatividade. Seu sarcasmo poderia cortar a grama alta da quadra. No grupo de mensagens da vizinhança, Nicanor é uma instituição informal. Uma espécie de Tribunal de Contas do Absurdo Cotidiano.
Nada escapa ao seu olhar rabugento: a calçada quebrada, o cachorro do vizinho, o pão murcho da padaria, o carro mal estacionado, a pauta da assembleia do condomínio — que ele não perde uma —, a criançada que brinca e faz barulho, o síndico que prometeu providências e a humanidade inteira.
Certa vez, apareceram pegadas no cimento fresco da nova calçada. Molecagem de criança.
O grupão entrou em combustão.
Nicanor, naturalmente, acendeu o fósforo.
— Agora temos uma calçada da infâmia? Isso é bom! Acho que deveríamos emoldurar as pegadas e vender como arte conceitual para pagar o conserto. A Delinquência em Concreto. Não é isso que esse pessoal alternativo faz?
Nicanor não comenta.
Ele sentencia.
E toda sentença vem com gosto de leite azedo, azia antiga e uma pequena alegria de ver o mundo confirmando suas piores expectativas.
Aplicativos, festas juninas, panetones fora de época, obras públicas, reuniões de condomínio: tudo lhe parece prova documental de que a civilização foi um experimento apressado e, definitivamente, malsucedido.
Ainda assim, Nicanor participa.
Reclama, mas está lá.
Critica a assembleia, mas assina a lista.
Desdenha da confraternização, mas leva farofa.
Diz que odeia o grupo de mensagens, mas responde em dois minutos.
Por baixo da casca de limão, há quem creia que bate um coração.
Descompassado. Nervoso. Talvez machucado. Mas existe.
Ele é o tipo de vizinho que ninguém gostaria de ter, até precisar de alguém que saiba onde fica o registro de água desativado que pode estar vazando, qual empresa fez a última reforma da garagem e qual morador deu calote em 1993.
Nicanor V.D.M. é um poço de sabedoria inútil.
Mas sabedoria inútil, convém lembrar, muitas vezes é apenas sabedoria antes de encontrar ocasião.
No Grupão do Zap da Vizinhança, ele transforma a indignação coletiva em espetáculo, a fofoca em crônica, a reclamação em método e a vida em uma longa repartição pública onde ninguém sabe exatamente quem carimbou o absurdo.
Pelo excesso, revela o excesso.
Pelo mau humor, denuncia a alegria falsa.
Pela implicância, mostra aquilo que todo mundo viu, mas preferiu deixar passar para não parecer inconveniente. Nicanor é inconveniente por vocação. Um cínico convicto. E, em tempos educadamente insuportáveis, talvez toda vizinhança precise de alguém que avise: o cimento ainda está fresco.