travessão · a cidade interrompe e recomeça

Cidades com texto e alma

ensaio para quem escreve diariamente com a sola do sapato, mas não assina o projeto

Áudio

Uma vez, numa dessas conversas em que o futuro aparece no telão antes de aparecer na garagem do vizinho, ouvi alguém dizer que as cidades também usam pontuação.

Gostei da ideia. Desconfiei dela. Depois não consegui mais desver.

As pontes são hífens: aproximam pedaços que nasceram brigados.

Os viadutos são travessões: passam por cima do assunto sem necessariamente resolvê-lo.

As esquinas são vírgulas: pequenas pausas antes do risco assumido de continuar.

Os túneis seriam dois-pontos: depois deles, alguma coisa se anuncia.

As torres são exclamações: querem ser vistas, mesmo quando não dizem nada.

As rotatórias são interrogações: para onde, afinal, a gente está indo?

As praças são pontos finais provisórios: a cidade senta um pouco para recuperar o fôlego.

Mas a pontuação urbana não é só desenho.

É disputa.

Quem ergue parênteses decide o que será tratado como assunto secundário.

Quem abre aspas define quem deve ser levado em conta. Toda cidade tem autoria.

A questão é: quem assina?

O arquiteto assina.

O prefeito assina.

O mercado assina.

O banco assina.

A construtora assina.

O aplicativo assina.

O algoritmo começa a assinar também.

Mas há outras firmas não reconhecidas.

A do gari que sabe onde a rua amanhece suja. A da feirante que reorganiza a calçada pelo cheiro da fruta. A da criança que transforma um canto qualquer em território de brincadeira. A da mulher que muda de caminho à noite para conseguir chegar em casa.

A do entregador que conhece a cidade pelos buracos da via. A da pessoa idosa que mede a dignidade de uma avenida pela distância entre dois bancos e uma faixa de pedestres. A da pessoa com deficiência que descobre, no próprio corpo, que o projeto é que incapaz. Essas assinaturas raramente vão para a placa inaugural. Mas são elas que revisam a cidade todos os dias.

Uma cidade cheia de sensores pode continuar analfabeta de povo.

Pode contar carros e não contar necessidades. Pode medir fluxo e ignorar medo. Pode instalar câmeras onde falta árvore. Pode chamar de inovação aquilo que é só abandono com wi-fi.

Cidade inteligente de verdade não é a que coleta mais dados. É a que distribui mais dignidade.

E dignidade, convém lembrar, não é aplicativo. É passeio público inteiro. É sombra. É água e saneamento. É escola com professor motivado. É ônibus que passa na hora. É praça

sem expulsão. É criança podendo brincar sem pedir desculpa à especulação imobiliária.

O futuro urbano precisa de quem espera. De quem varre. De quem atravessa.

De quem sabe onde alaga antes do satélite. De quem sente no corpo a falha que o relatório ainda não aprendeu a nomear.

A cidade não pode continuar sendo biografia de meia dúzia de sobrenomes.

Intervir na pontuação é intervir na autoria. Não para controlar o enredo. Mas para permitir que mais gente respire entre uma frase e outra — e possa participar da coautoria urbana.

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