; ponto e vírgula · o que pausa e continua

O futuro é um vendedor insistente

crônica para sair vivo de um evento de inovação

Áudio

O futuro sabe vender.

Chega bem vestido.

Usa tênis confortável.

Tem crachá, painel de luz, café ruim em copo bonito e uma frase em inglês antes do almoço.

O futuro diz: disrupção.

escala.

ecossistema.

jornada.

experiência.

agente autônomo.

aprendizagem adaptativa.

governança de IA.

transformação.

A plateia anota.

Ninguém quer parecer velho diante do futuro.

O futuro é um vendedor insistente.

Bate na porta com catálogo colorido e diz que agora vai. Agora a escola será personalizada.

Agora a cidade será inteligente.

Agora o trabalho será flexível.

Agora a saúde será preditiva.

Agora a democracia será participativa.

Agora o planeta será sustentável.

Agora.

O “agora” do futuro é sempre convincente.

Só que, do lado de fora do auditório, a rua continua esburacada.

O transporte público atrasa.

A professora compra material com o próprio dinheiro. A pessoa idosa não consegue marcar consulta.

A criança domina as funcionalidades do celular, mas tem dificuldade de segurar um lápis.

O entregador não tem tempo para assistir à palestra sobre o futuro do trabalho.

Há uma distância obscena entre a promessa e a realidade. Gosto do futuro quando chega pequeno.

Como muda de árvore.

Como nova palavra na boca de uma criança.

Como tecnologia que devolve tempo em vez de roubar. Como aplicativo que ajuda alguém a superar alguma barreira, não apenas a ser medido com mais precisão. O futuro bom não humilha o presente.

Ajoelha perto dele e pergunta: onde dói?

O futuro ruim chega com pressa de substituir.

Substituir o professor.

Substituir o cuidado.

Substituir o encontro.

Substituir o corpo.

Substituir o conflito.

Substituir a conversa pelo painel.

Mas algumas coisas não querem ser substituídas.

Querem ser escutadas.

A escola não precisa apenas de plataforma.

Precisa de vínculo.

A cidade não precisa apenas de sensor.

Precisa de sombra.

O trabalho não precisa apenas de automação.

Precisa de limite.

A saúde não precisa apenas de dado.

Precisa de presença.

A política não precisa apenas de participação digital. Precisa de gente que não seja tratada como estatística negativa. O futuro é bom quando aumenta a vida.

Quando aumenta só a velocidade, desconfio.

Velocidade sem direção é ansiedade com motor.

Há quem confunda inovação com novidade.

Novidade envelhece no estoque.

Inovação, quando presta, muda a qualidade do cuidado.

Saí do evento com uma sacola, três cartões, cinco promessas e a sensação de que o futuro ainda precisa aprender a atravessar a rua.

Talvez o futuro só comece mesmo quando parar de se apresentar no palco e sentar no ponto de ônibus.

Ali, sem microfone, talvez diga algo útil.

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