; ponto e vírgula · a tecnologia promete continuar

A máquina não sonha por nós

nota sobre inteligência artificial, autoria e outras

Áudio

assombrações úteis A máquina me ajudou a organizar o caos. Mas não viveu o caos. Sugeriu cortes. Mas não sangrou onde eu cortei. Aproximou ritmos. Mas não esperou a casa dormir para escrever. Devolveu imagens. Mas não carregou meus filhos pela mão. Não envelheceu minha lombar em reunião. Não tremeu diante do laudo. Não ficou olhando para o teto às três da manhã tentando descobrir se o futuro era ameaça, promessa ou apenas um boleto com roupa nova. A máquina não sonha por nós. No máximo, reorganiza os restos dos sonhos humanos que já foram jogados no mundo. E isso não é pouco. Toda ferramenta é uma forma de conversa com o possível.

O lápis ampliou a mão. A prensa ampliou a voz. A câmera ampliou o olho. O rádio ampliou a distância. O computador ampliou o cálculo. A rede ampliou o ruído. A inteligência artificial amplia o espelho. E um espelho ampliado pode ser perigoso. Mostra melhor a espinha. Mas também aumenta o narcisismo. O problema talvez não seja a máquina pensar demais. É a gente pensar de menos diante dela. Há quem tema que a IA roube a autoria. Eu temo mais quando ela devolve uma autoria sem cicatriz, lisa demais, pronta demais, obediente demais. Texto perfeito demais costuma ter cheiro de hospital. A literatura precisa de algum micróbio. Precisa da frase que manca. Do pensamento que tropeça. Da palavra que não sabe se veio da infância ou do erro. Do parágrafo que resiste à limpeza. Da imagem que ninguém aprovaria em comitê. A máquina pode ajudar a varrer a casa. Mas não deve decidir quais fantasmas continuam morando nela. Usei a máquina como se usa uma faca. Para cortar. Para descascar. Para abrir caminho no cipó. Mas ninguém chama a faca de cozinheira.

A receita ainda pertence ao corpo que teve fome. A autoria nunca foi uma nascente pura. Toda palavra chega com parentes. Toda frase tem dívida. Todo estilo é uma mesa onde sentam mortos, vivos, professores, inimigos, amores, canções, placas de rua, livros esquecidos, conversas ouvidas pela metade. A novidade não é a mistura. A novidade é o tamanho da boca que mistura. Por isso convém cuidado. A máquina mastiga muita coisa. Nem tudo que ela devolve foi oferecido com consentimento. Há saberes que não são matéria-prima. Há memórias que não são banco de dados. Há vozes que não existem para alimentar produto. Há dores que não devem virar estética sem relação. Intertextualidade não é licença para saque. Apropriar sem transformar é preguiça com pose teórica. Transformar exige responsabilidade. Citar quando necessário. Reconhecer quando devido. Devolver quando possível. Calar quando o silêncio for mais honesto que a captura. A máquina não me absolve. Também não me condena. Ela participa.

Como participaram o bloco de notas, a caneta, o café, a insônia, a cidade, os livros que li, as músicas que não terminei, as pessoas que amei e as que me ensinaram, sem querer, alguma forma de raiva útil. Este livro não foi escrito por uma máquina. Também não foi escrito por uma pureza. Foi escrito por uma pessoa atravessada. E toda pessoa atravessada é uma tecnologia antiga de recombinação. » a máquina organiza, mas não vive » ninguém chama a faca de cozinheira » texto perfeito demais tem cheiro de hospital » intertextualidade não é licença para saque

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