; ponto e vírgula · a tecnologia promete continuar

O dado que não queria ser dado

pequena fábula estatística

Áudio

Antes de virar dado, ele era alguém. Tinha nome, mas o nome foi retirado para proteção da privacidade. Tinha corpo, mas o corpo foi convertido em variável. Tinha história, mas a história atrapalhava a análise. Tinha medo, mas medo não cabia naquela célula. Tinha território, mas o território virou localização aproximada. Tinha mãe, dívida, febre, memória, desejo, religião, alergia, apelido, vergonha, cicatriz, sotaque, senha esquecida, música preferida, pressa e uma pequena esperança que não pôde ser normalizada. Depois virou dado. O dado entrou numa base. A base entrou num modelo. O modelo entrou num painel.

O painel entrou numa reunião. A reunião entrou numa decisão. A decisão voltou para o corpo que um dia tinha virado dado. E o corpo sentiu. É assim que o mundo gira agora: a vida sobe como informação e desce como política, preço, risco, score, prioridade, vigilância, oferta, exclusão. O dado achou estranho. Não tinha sido consultado sobre virar destino. Disseram que era anonimizado. Mas ele continuava se reconhecendo no estrago. Disseram que era agregado. Mas ele sentia a solidão de ser multidão. Disseram que era tendência. Mas ele sabia que tendência, às vezes, é uma palavra usada para impedir que alguém seja ouvido em primeira pessoa. O dado não era contra a ciência. Pelo contrário. Gostava quando uma boa análise revelava injustiças, melhorava serviços, salvava tempo, distribuía cuidado, antecipava riscos, corrigia rotas. O dado só não queria ser tratado como coisa órfã. Dado também tem ancestralidade.

Veio de uma vida. De uma coleta. De uma pergunta. De um método. De uma escolha. De um interesse. De um contexto. Nenhum dado nasce nu. Alguém decidiu o que medir. Alguém decidiu o que ignorar. Alguém decidiu a categoria. Alguém decidiu a margem de erro. Alguém decidiu que a dor poderia esperar a próxima versão do sistema. O dado começou a desconfiar da palavra “neutro”. Neutro, descobriu, quase sempre é o nome que o poder dá para si mesmo quando não quer aparecer na fotografia. Um dia, cansado de ser arrastado de painel em painel, o dado fugiu. Escondeu-se no corpo de onde tinha vindo. Voltou a ser respiração. Voltou a ser atraso. Voltou a ser fome. Voltou a ser pergunta. Voltou a ser pessoa sentada diante de outra pessoa dizendo: antes de me calcular, me escuta. » antes de dado, era corpo » neutro é o poder sem fotografia » dado também tem ancestralidade » tendência não substitui testemunho

! EXCLAMAÇÃO o corpo transmite

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