, vírgula · o trabalho respira mal

Reunião que devia ter sido silêncio

pequena liturgia para pessoas sentadas em torno do

Áudio

nada Toda reunião começa com uma esperança mentirosa. Talvez hoje seja rápido. Nunca é. A reunião é o ritual moderno em que pessoas adultas se juntam para descobrir, em grupo, que ninguém leu o documento. Há sempre alguém compartilhando a tela errada. Há sempre alguém dizendo “só para contextualizar” e abrindo um túnel histórico que começa na fundação da organização e termina na exaustão da espécie. Há sempre a pessoa que fala “vou ser breve” e ameaça a estrutura do tempo. Há sempre o microfone aberto de alguém que esqueceu que vive em família, bairro, planeta. Há sempre um cachorro mais lúcido do que a pauta.

A reunião tem suas entidades. O Entusiasta do Alinhamento. A Guardiã do Prazo. O Xamã do Indicador. A Pessoa do Jurídico, que aparece no fim para lembrar que a realidade tem cláusulas. O Participante Silencioso, cuja câmera desligada talvez esconda uma alma, talvez apenas almoço. E há o Facilitador. O Facilitador acredita sinceramente que a humanidade pode ser salva por papéis coloridos na parede. Não julgo. Cada povo tem seu amuleto. A reunião que devia ter sido silêncio costuma nascer de um medo: o medo de decidir. Então chamamos mais gente. Criamos um grupo. Abrimos uma planilha. Marcamos uma conversa exploratória. Depois uma conversa de alinhamento. Depois uma conversa de encaminhamento. Depois uma conversa para validar os encaminhamentos da conversa anterior. A burocracia é uma planta trepadeira: quando encontra parede, sobe. No fundo, muitas reuniões são apenas formas caras de adiar o verbo. Decidir dói. Implica escolher uma coisa e enterrar suas irmãs.

Por isso preferimos circular em torno da decisão como urubus educados. “Vamos amadurecer.” “Vamos calibrar.” “Vamos envolver os atores.” “Vamos fazer uma escuta.” “Vamos construir uma governança.” “Vamos criar um subgrupo.” O subgrupo é o purgatório da decisão. Quando uma ideia vai para o subgrupo, sua família deve ser avisada. Ainda assim, às vezes, no meio da reunião inútil, acontece um milagre. Uma pessoa diz uma frase simples. Alguém escuta. O ar muda. O problema deixa de usar terno. A coisa aparece. Nua. Pequena. Resolúvel. Então todos fingem que era isso desde o começo. Não era. Foi preciso atravessar uma floresta de frases para chegar ao óbvio. O óbvio é uma fruta difícil: só amadurece depois que muita gente passa vergonha em volta da árvore. Eu não sou contra reuniões. Sou contra reuniões que sequestram a respiração. Uma boa reunião deveria terminar com menos peso no corpo.

Com mais clareza. Com menos teatro. Com nomes próprios. Com verbos. Com silêncio suficiente para alguém pensar antes de concordar. Uma reunião decente sabe a hora de morrer. As piores não morrem. Viram ata. Depois viram pendência. Depois viram lembrete. Depois viram outra reunião. E assim a roda gira, como moinho movido a café requentado e falsa urgência. Talvez o futuro do trabalho comece com uma tecnologia revolucionária: antes de marcar uma reunião, perguntar se ela merece existir. » reunião é teatro de poder com água mineral » o subgrupo é o purgatório da decisão » o óbvio amadurece depois da vergonha » nem todo encontro merece calendário

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