, vírgula · o trabalho respira mal

O dia cobra recibo

crônica de expediente para uma xícara que esfriou antes

Áudio

da decisão O dia começa antes da gente. Quando abrimos os olhos, ele já protocolou três urgências, dois atrasos e uma culpa. Acordar é entrar numa fila invisível. Senha: corpo. Guichê: mundo. Atendente: ninguém. Às 06h48, a bateria está em 87%, mas a alma ainda carrega em modo lento. O celular pisca. Duas mensagens azuis. Um áudio de um minuto e quarenta. Uma reunião remarcada. Um documento chamado final_final_agora_vai. Um bom-dia com urgência embutida. O trabalho moderno aprendeu a sorrir antes de morder. Diz “alinhamento” com a boca cheia de disputa. Diz “entrega” como quem pede oferenda. Diz “só um ajuste” quando quer dizer: prepare outra noite. O dia cobra recibo.

Cobra do corpo, da agenda, da paciência, da lombar, do olho seco, do café que morreu na xícara sem direito a velório. Alguns textos nasceram assim: no corredor, com um prazo na mão e uma caneca sem temperatura. Outros, no semáforo. Outros, no fim da noite, quando a cabeça ainda estava presa num e-mail que eu não queria mandar. Ao reler as anotações, vejo uma coreografia silenciosa: clube, gestão, conselho, continuidade. transportes, feira, ministério, projeto. parlamento, orçamento, investimentos, recursos. alunos, convivência, mídias, jovens. Palavras em fila. Parecem lista. Mas eram peso. Cada palavra carregava gente dentro. Um projeto nunca é só projeto. É vaidade, medo, orçamento, promessa, assinatura, expectativa, ruído, disputa, alguém que vai ganhar crédito e alguém que vai carregar a caixa. Uma reunião nunca é só reunião. É teatro de poder com água mineral. Uma ata nunca é só ata. É a versão educada da batalha. Havia dias em que o dia inteiro parecia uma planilha: células, subquesitos, entregas, anexos, versões, abas escondidas. Eu anotava para não esquecer que, por trás de

cada célula, havia uma escolha de prioridade, uma renúncia de cuidado, uma aposta de tempo. A planilha é uma grande ficção realista. Finge neutralidade, mas decide destinos. Finge objetividade, mas esconde cansaços. Finge ordem, mas às vezes só organiza o pânico em colunas. Quando a rotina apertava mais, eu voltava ao básico: nomear o problema e seguir. Se eu não nomeasse, alguém nomearia por mim — quase sempre para caber melhor na própria agenda. O trabalho vira idioma. E, quando o trabalho vira idioma, a gente escreve para não esquecer a tradução. “Prazo” pode querer dizer controle. “Projeto” pode querer dizer poder. “Revisão” pode querer dizer insegurança. “Disponibilidade” pode querer dizer submissão elegante. “Só mais uma reunião” pode querer dizer: hoje você não verá a luz do dia por dentro. Há uma violência discreta na linguagem profissional. Ela não grita. Ela calibra. Não manda. Sugere. Não explora. Engaja. Não esgota. Desafia. Não invade a noite. Flexibiliza.

A palavra “flexível”, aliás, deveria vir com fisioterapeuta incluso. Ser flexível demais é o primeiro passo para virar elástico de pasta velha: todo mundo puxa, ninguém pergunta se arrebentou. Mas o trabalho também tem seu chão. E o chão é mais honesto que o palco. O chão do trabalho é a parte que não vai para o portfólio, mas decide se a coisa fica de pé. É a pessoa que confirmou a sala. A que revisou o nome errado. A que segurou o humor do grupo. A que ligou para resolver o que ninguém queria assumir. A que lembrou do cabo, da senha, do café, da lista, da ausência, da vírgula torta no documento final. O mundo profissional ama estratégia, mas sobrevive de miudeza. Ninguém faz foto da miudeza. Não tem post bonito para “passei três horas corrigindo a base de contatos”. Não tem prêmio para “impedi discretamente um desastre institucional”. Não tem case para “fiquei calado na hora certa e salvei a tarde”. Mas é ali que a coisa respira. Ou não. O café esfriou antes do final da reunião. Escrevi a nota assim mesmo, com a xícara fria do lado.

Às vezes o frio do café é o único sinal de que o tempo passou. E talvez seja por isso que eu escreva: para guardar prova de que estive lá. De que aquele dia existiu. De que aquele cansaço teve nome. De que aquela tarefa comeu uma parte da vida. De que eu não fui totalmente engolido pelo que o dia exigia. O dia cobra recibo. A escrita é a segunda via. » há dias em que o trabalho vira idioma » café frio também é marcador temporal » a planilha organiza o pânico em colunas » a escrita é a segunda via

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