reticências · o que continua depois da gente

Pequeno inventário do que fica

Pontuar a vida para impedir o apagamento

Áudio

Ao fim de cada jornada, a vida pede um mero testemunho de presença.

Não quer relatório de metas, nem apresentação de resultados.

Quer saber se, entre um compromisso e outro, alguém esteve ali de verdade.

Fica a cadeira fora do lugar, prova discreta de uma conversa que demorou mais do que o planejado.

Fica a toalha meio úmida no banheiro, lembrando um rosto que pensou demais diante do espelho.

Fica a luz acesa num cômodo vazio, vestígio de uma pressa que não desligou por completo.

Fica a mensagem escrita e não enviada.

Fica o áudio apagado antes do fim.

Fica o “depois a gente vê” rabiscado na margem de um caderno.

Fica o erro assumido, que vale mais do que muito acerto bem disfarçado.

Fica o corpo avisando do cansaço pelas frestas: no ombro que pesa, no passo que encurta, na respiração que perde o compasso.

Fica a cidade percorrida no automático, mas registrada na sola do sapato.

Fica o gesto pequeno de cuidado que ninguém viu, mas segurou um pedaço do dia no lugar.

Fica o silêncio em que uma decisão quase nasceu.

Fica, sobretudo, a tentativa.

Tentativa de estar, de ouvir, de dizer, de cuidar um pouco melhor do que ontem.

Tentativa de não passar pela própria vida como visitante distraído.

Ao fim de cada jornada, a vida não pede perfeição: pede pegada.

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