… reticências · o que continua depois da gente
Pequeno inventário do que fica
Fica o café frio. Fica a caneta sem tampa. Fica uma criança perguntando se estrela dorme. Fica o corpo mandando notícia. Fica a cidade errando a própria frase. Fica o trabalho, esse cachorro que não para de puxar a guia. Fica a planilha com uma aba escondida chamada cansaço. Fica a reunião que devia ter sido silêncio. Fica o silêncio que devia ter sido escutado. Fica a Rodoviária sustentando a tese. Fica o céu de Brasília expondo o poder. Fica o vento ensinando sem explicar. Fica o dado fugindo de volta para o corpo. Fica a máquina ajudando a varrer a casa, mas sem direito de expulsar os fantasmas. Fica o lápis. Fica a caneta.
Fica a borracha lembrando que quase tudo pode ser recomeçado. Fica a enxada abrindo a terra. Fica a letra dando a mão. Fica a menina devolvendo cor ao mundo. Fica o menino atravessando fases. Fica o pai tentando escrever antes que as palavras durmam. Fica o amor, mancando, mas chegando. Fica a frase que ninguém pediu. Fica a nota de celular que criou raiz. Fica o tremor. Fica a dança. Fica o recibo do dia. Fica, sobretudo, a tentativa. E talvez tentativa seja o nome mais honesto da esperança. » o amor chega, mesmo mancando » esperança talvez seja tentativa » a vida deixa segunda via » nada termina quando vira cuidado