Instruções para usar um livro que não obedece

Áudio

Este livro não nasceu livro. Nasceu no bolso da calça, na tela rachada, no aplicativo de notas que nunca sincroniza quando a alma precisa. Nasceu em reunião comprida, semáforo fechado, madrugada sem plateia, aeroporto, exame médico, fila de farmácia, quarto de criança dormindo. Nasceu onde quase tudo nasce hoje: no intervalo. Não foi escrito de uma vez. Nem por uma só pessoa. Ponto Imaginário é isso: uma multidão tornada sujeito. Ou, se preferirem, um indivíduo coletivo. Tem a voz do pai, a do funcionário, a do menino antigo, a do corpo que falha, a da cidade que buzina, a da máquina que devolve espelhos, a dos livros lidos, a da mulher que sabe quando é hora de parar, a dos filhos que inventam começo onde o adulto só via fim. Escrever é sempre uma assembleia tentando caber numa assinatura. Há também vozes emprestadas. Toda palavra chega com parentes.

Por isso este livro não acredita muito em pureza. Pureza é uma ideia perigosa, geralmente usada por gente que quer lavar o mundo até apagar suas marcas. Aqui não. Aqui tem mancha, rasura, resto de café, notificação, música inacabada, frase que veio bonita e depois ficou desconfiada de si mesma. Leia como puder. Pode começar pelo meio. Pode entrar por uma canção e sair por uma carta. Pode pular o ensaio e voltar nele quando a vida estiver mais paciente. Pode ler no ônibus, fingindo que está vendo mensagem. Pode ler antes de dormir, se o sono deixar. Pode abandonar por semanas e voltar sem culpa. Livro bom não cobra fidelidade conjugal. Cobra presença. Cada parte deste caderno tem um sinal de pontuação. Não é decoração. É ossatura. A cidade fala por travessões — interrompe, empurra, abre caminho, fecha rua. O trabalho respira por vírgulas — uma tarefa, outra tarefa, outra tarefa, outra. A tecnologia vive de ponto e vírgula — promete terminar, mas continua. O corpo às vezes só sabe escrever exclamações. A família abre dois-pontos — depois dela, alguma coisa precisa ser dita. O futuro, esse bicho sem rosto, escreve em reticências. Não procure uma história reta. Linha reta serve para régua, ata e túmulo. A vida prefere curva.

Os textos aqui andam como quem atravessa uma cidade desconhecida: erram a entrada, reconhecem uma esquina, perguntam informação, desconfiam do mapa, param para um café, seguem mesmo assim. Alguns têm forma de crônica. Outros de ensaio. Outros de carta, canção, bilhete, quase oração, quase piada, quase pedido de socorro. O quase é importante. Quase é onde a literatura mora antes de virar endereço. Este livro fala de cidade, trabalho, linguagem, tecnologia, corpo, doença, amor, família e futuro. Mas, no fundo, talvez fale de uma coisa só: a tentativa de continuar humano num tempo que insiste em nos transformar em senha, meta, dado, laudo, currículo, entrega. Não há conclusão. Conclusão é quando alguém fecha a porta por dentro e finge que entendeu a casa inteira. Aqui há coda. A música termina, mas deixa uma vibração na madeira. A frase acaba, mas fica andando no corpo. O dia passa, mas cobra recibo. E o rascunho — esse animal teimoso — continua respirando. » contexto é poder » o corpo revisa o plano » amor também é infraestrutura » nada termina quando aprende a virar canto

— TRAVESSÃO a cidade interrompe e recomeça

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